Review - Ninja Gaiden: Ragebound

Por Ricardo Syozi
Durante minha jornada em Ninja Gaiden: Ragebound, a sensação predominante foi a de ouvir o novo álbum de uma banda veterana que, após anos de experimentações, promete “voltar às raízes”.
Deixe-me explicar: acompanho as aventuras de Ryu Hayabusa desde os tempos de arcade, passando pelo NES e suas interpretações em 3D nos consoles modernos. Ao longo desse caminho — como acontece com muitas bandas de rock — a franquia da Koei Tecmo enfrentou altos e baixos, e em certos momentos parecia ter perdido o rumo. O tom mudou, as rimas soaram estranhas, as metáforas já não se encaixavam, e o estilo que a consagrou parecia cada vez mais distante. Vieram spin-offs, participações especiais aqui e ali, mas o espírito do 2D parecia enterrado no passado.
No entanto, assim como certas bandas reencontram sua essência após um hiato, Ninja Gaiden decidiu que era hora de lançar um novo "álbum" com a pegada dos primeiros tempos — mas sem esquecer o que aprendeu ao longo da jornada. Essa é, sem dúvida, a maior virtude de Ragebound.
Novo disco, mesmos riffs
Publicado pela Dotemu e desenvolvido pela The Game Kitchen (de Blasphemous), a nova aventura resgata muito do que tornou a trilogia do NES tão icônica. Há estilo de sobra, jogabilidade densa e nuances que só os veteranos vão captar. Tudo isso envolto em uma narrativa simples, que não faz alarde, mas respeita a inteligência do jogador.
Assim como uma banda que precisa de um novo vocalista para reencontrar sua identidade, Ninja Gaiden: Ragebound traz mudanças importantes. Sai Ryu Hayabusa e entra Kenji Mozu, um discípulo jovem, talentoso e temperamental do lendário protagonista. Ele embarca em uma jornada de autoconhecimento ao lado de uma parceira improvável: Kumori, integrante do Spider Clan. Juntos, tentam impedir o retorno do Demon Lord e a destruição iminente do mundo.
A grande sacada dessa dupla é que Kenji e Kumori funcionam como uma única entidade — duas metades com habilidades complementares. A jogabilidade exige alternância entre os dois para resolver puzzles, vencer inimigos específicos e explorar ao máximo o cenário. Chefes, por exemplo, só sofrem dano significativo quando ataques de um personagem acumulam energia para o outro finalizar.
Os estágios são ricos em segredos, caminhos alternativos, colecionáveis e uma boa diversidade de inimigos. Além disso, é possível visitar a loja do Muramasa para adquirir itens que tanto facilitam quanto aumentam o desafio, como restaurar toda a vida em um checkpoint ou receber mais dano em troca de um ranking melhor no fim da fase. No fim das contas, cabe ao jogador decidir como quer viver essa jornada.
Clássico é clássico
Em Ninja Gaiden: Ragebound, não faltam momentos e detalhes que prestam homenagem aos clássicos 2D da série. Ainda assim, senti que os desenvolvedores aliviaram um pouco demais na dificuldade. Os checkpoints surgem com frequência (praticamente após cada segmento da fase) o que facilita bastante as tentativas do jogador. Entendo a escolha: os estágios são longos, exigem paciência e convidam ao velho esquema de tentativa e erro. Mas, no processo, parte da tensão que marcava os jogos anteriores se dilui.
Sempre há um checkpoint posicionado antes dos chefes, garantindo tentativas ilimitadas até vencer o desafio. Para uma franquia notória por sua dificuldade implacável, essa suavização pode soar como um refrão menos agressivo do que os fãs esperavam. É como quando uma banda de metal lança um disco novo: os riffs estão lá, os vocais ainda carregam identidade, mas a produção polida e as letras mais acessíveis revelam uma busca por equilíbrio entre legado e novos públicos. Mesmo com essa mudança de tom, Ragebound ainda consegue respeitar suas origens — só que agora em um volume mais moderado.
Apesar disso, a estrutura mais acessível não significa que o game seja desprovido de desafio. Pelo contrário: a exigência está nos detalhes, desde os padrões de ataque dos chefes à precisão dos saltos e na leitura rápida de investidas inimigas. É um tipo diferente de dificuldade, mais calculada e menos punitiva, que recompensa atenção e domínio das mecânicas em vez de castigar o jogador com repetição exaustiva. Nesse ponto, o jogo mostra maturidade: não quer apenas reviver o passado, mas reinterpretá-lo com inteligência.
Capa de disco
Para quem valoriza o estilo, Ragebound é um verdadeiro deleite visual. Os sprites são ricos em detalhes, os cenários têm personalidade e há um cuidado artístico evidente em cada ambiente. A paleta de cores escolhida também merece destaque: mais viva e contrastante, ela se afasta do tom sombrio e acinzentado dos jogos 3D da franquia e se aproxima da energia vibrante da trilogia original de 8 bits no NES. É como se a banda tivesse deixado de lado a fase industrial e voltado às capas coloridas dos álbuns de estreia.
Já a trilha sonora é um espetáculo à parte. E como venho usando analogias musicais, não poderia deixar de destacar as guitarras elétricas pulsantes, o baixo marcante e a bateria incansável das composições de Sergio de Prado, Keiji Yamagishi, Kaori Nakabai e Ryuichi Nitta. A vibe é aquela dos filmes de ninja dos anos 80, misturando adrenalina e nostalgia, mas com uma produção moderna e afiada. Pode parecer clichê dizer que “é um show à parte”, mas aqui é exatamente isso — um setlist redondo, sem faixas descartáveis.
Vale a pena jogar Ninja Gaiden: Ragebound?
Sim. Vale sim.
Quando uma banda veterana promete um “retorno às raízes”, é comum que o resultado decepcione parte dos fãs. Mas a The Game Kitchen conseguiu algo raro: entregar um jogo que respeita o legado, mas que também inova na medida certa. Seja você um velho conhecido do Nintendinho ou alguém embarcando pela primeira vez no universo do clã Hayabusa, Ragebound acolhe, desafia e diverte.
Há esmero na construção dos personagens, profundidade nas relações e um senso de ritmo que mantém o jogador engajado do início ao fim. Tudo isso, claro, enquanto inimigos e armadilhas surgem sem piedade para testar seus reflexos. No fim das contas, Ragebound é como aquele disco novo de uma banda que você amava na juventude: fiel às raízes, moderno o suficiente e repleto de faixas memoráveis. Pode dar o play sem medo.
NOTA: 4/5