Review: Earthion

Por Micael Xbr

O compositor Yuzo Koshiro anunciou em 2022 que estava trabalhando em um novo jogo de navinha. Tudo indicava que seria para o Mega Drive, após ele revelar o uso do chip de som FM “YM2612”, o mesmo do console de 16 bits da Sega. A internet ferveu e a comunidade de fãs da Sega foi à loucura. Após clássicos absolutos como Streets of Rage e The Revenge of Shinobi, Koshiro voltava ao console, onde seu último trabalho, Beyond Oasis, havia sido lançado em 1994 — jogo conhecido como Story of Thor no Japão. Nele, Koshiro não apenas compôs as músicas e efeitos sonoros, mas também atuou no design e na direção. Mesmo que seu trabalho nunca tenha parado, para os fãs de pixels e FM seria um retorno aguardado por 30 anos.

Caso você não seja desse planeta ou seja novo demais para saber, o Mega Drive é um console lançado pela japonesa Sega em 1988. Foi conhecido como o primeiro a apresentar uma CPU de 16 bits, trouxe títulos famosos como Sonic the Hedgehog, Golden Axe e Shinobi, e disputou mercado com o Nintendo e o Super Nintendo na época conhecida como a “Guerra dos Consoles”.

Yuzo Koshiro é um dos compositores mais famosos dos anos 80 até hoje. Começou nos computadores pessoais japoneses, mas fez trilhas para praticamente todos os consoles possíveis. É lembrado por músicas de jogos como Ys (1987), The Revenge of Shinobi (1989) — onde inovou ao ter seu nome destacado na tela inicial —, ActRaiser (1990, Super Nintendo) e, em 1991, explodiu com a trilogia Streets of Rage. Também trabalhou em Sonic (versão de Master System) e Shenmue (1999).

Sempre ativo no X (antigo Twitter), Koshiro compartilha seu dia a dia, trabalhos, shows e músicos preferidos. Até que decidiu mostrar o progresso do desenvolvimento de Earthion, um jogo de tiro para Mega Drive no qual estava compondo as músicas e explorando ao máximo os recursos limitados do hardware. Os visuais impressionaram pela qualidade, comparável ou superior aos maiores shmups do console, e as prévias da trilha sonora mostravam todo o talento característico do compositor. Ele também revelou que o jogo sairia em 2025 para PC, consoles atuais e, claro, para o Mega Drive.

"A direção é bastante modesta, e há muitas outras imagens e sons que desafiam os limites do Mega Drive."
"É realmente um renascimento depois de 30 anos. Está ainda mais poderoso agora, então, por favor, aguardem."

HISTÓRIA

Sentindo os limites dos recursos escassos da Terra, os humanos começaram a transferir sua base de operações para Marte. Apenas alguns permaneceram na Terra e, embora os planos para restaurar o meio ambiente estivessem em andamento, as chances de sucesso eram mínimas. Ao iniciar sua nova história em Marte, a humanidade enfrenta seu primeiro grande desafio: incontáveis naves espaciais gigantescas surgem do nada e começam a invadir a Terra.

A organização de defesa “Earthion”, formada para salvar o antigo planeta natal, parte de Marte rumo à Terra para libertá-la! No papel da pesquisadora ambiental Azusa Takanashi, você pilota o caça espacial de última geração YK-IIA na maior resistência da história da humanidade.

Earthion

ANÁLISE

O novo jogo da Ancient (desenvolvedora de Yuzo Koshiro), chamado Earthion, está programado para ser lançado nos consoles em 30 de outubro de 2025, com a versão para download prevista para 28 de setembro de 2025 e a versão digital para PC (Steam) já disponível desde 31 de julho de 2025. Uma versão em cartucho para Mega Drive também está prevista para 2026.

Como o lançamento da versão para Mega Drive sugere, o jogo rodará nativamente no hardware de 16 bits. E, embora seja um título retrô, trata-se de uma produção totalmente nova, repleta de tecnologia moderna e efeitos inovadores que ultrapassam os limites dos consoles da época.

“Sempre quis fazer um jogo de nave. Originalmente, estava pensando em criar algo para o Famicom. Então, quando estávamos formulando o conceito, o Sr. Wada (programador e diretor de Earthion) pesquisou sobre programação para o Mega Drive, e decidimos seguir com ele. Eu mesmo sou um grande fã do Mega Drive, é um hardware que realmente gosto.”

Desde a tela de título, o jogo já transmite uma atmosfera diferente dos jogos modernos. Os gráficos pixelados se misturam perfeitamente, enquanto o som distorcido — que só um sistema FM poderia oferecer — nos transporta de volta aos anos 90.

No início, você pode escolher entre quatro níveis de dificuldade. O jogo começa com uma cena de lançamento da nave, apresentando efeitos que simulam polígonos de alta qualidade em um movimento suave — algo surpreendente para um console de quarta geração. De acordo com Wada, a quantidade de informações na tela foi aumentada ao se usar uma perspectiva levemente diagonal em vez da tradicional lateral, tornando a jogabilidade mais interessante.

“Na abertura aparece a sigla YK-IIA como nome da nave, uma pequena homenagem e também uma piada interna, já que Yuzo usava o pseudônimo YK-2 quando escrevia matérias em revistas. Ele só percebeu a coincidência depois que o jogo já estava finalizado.”

Outro destaque é a abundância de vozes digitalizadas para nomes de armas e outros elementos. Koshiro explicou que, graças a drivers modernos, a quantidade de samplers em PCM pôde ser triplicada sem adicionar nada ao hardware.

O jogo possui dois botões principais de tiro: um para a arma principal, disponível desde o início, e outro para a arma secundária, que pode ser adquirida coletando ícones deixados pelos inimigos. Estes também deixam itens verdes que fortalecem ambos os tiros.

Para defesa, existe um sistema de escudo que funciona de forma diferente de uma barra de vida. A cada acerto, perde-se um nível, mas, se o jogador conseguir desviar dos inimigos por tempo suficiente, o escudo se recarrega. Os cristais verdes, além de melhorar as armas, aceleram essa recuperação.

É possível equipar até duas armas secundárias e alternar entre elas a qualquer momento com um terceiro botão. Essa troca torna-se essencial mais adiante, tanto para ter o disparo adequado em cada situação quanto para fortalecer a arma correta.

Nas opções, é possível configurar os controles e até unificar os botões de tiro principal e secundário.

Os inimigos derrotados também soltam destroços que se espalham pela tela. Eles podem ser destruídos e, ao final do jogo, a quantidade coletada aumenta sua pontuação.

Segundo Wada, o sistema de escudo foi escolhido porque ele não é um jogador experiente de shmups e, tendo sofrido com jogos dos anos 90, preferiu uma mecânica menos punitiva.

Ao ser atingido, não é apenas o escudo que diminui: o nível da arma principal e da secundária também é reduzido. As armas secundárias possuem três níveis, e, ao chegar a zero, são perdidas.

Outro detalhe impressionante é que, além da ação em primeiro plano, sempre há algo acontecendo no fundo: naves explodindo, destroços passando pela tela ou elementos que aumentam a sensação de profundidade.

“O que me fez começar a compor músicas para jogos foi a cena do final dos anos 80. Em Earthion, presto homenagem a clássicos como Gradius e Space Harrier.”

Além dos upgrades em armas e escudo, é possível melhorar a nave através das chamadas Adaptation Pods, deixadas por subchefes. Se você concluir a fase com uma dessas, pode escolher melhorias como mais escudos, slots extras para armas secundárias, níveis máximos de poder, uma arma opcional ou até vidas extras.

Como em muitos shmups clássicos, os chefes só podem ser derrotados atingindo pontos específicos enquanto você desvia de ataques intensos.

Concluir os oito estágios em qualquer dificuldade libera um final deslumbrante, mas para ver o verdadeiro final, que completa a história da abertura, é preciso terminar o jogo sem perder nenhuma vida.

Após inserir seu nome no ranking, surge uma tela de password que permite reiniciar o jogo em dificuldades maiores mantendo vidas, armas e upgrades. Há, no entanto, um ranking separado para quem usa password. Assim, apenas os que terminam o jogo de forma “limpa” entram na tabela mundial principal.

ENQUANTO ISSO, NO JAPÃO

Em Akihabara, bairro japonês conhecido pelas lojas de eletrônicos e cultura otaku, no dia 31 de julho de 2025 — data do lançamento de Earthion no Steam —, um arcade especial foi instalado para deleite dos fãs.

Usando o sistema exA-Arcadia, foi apresentado Earthion EXA LABEL, uma versão adaptada para fliperamas. Além do modo original, baseado no Mega Drive, os jogadores podem escolher o modo EXA LABEL, totalmente reimaginado para arcades.

Esse modo adiciona um sistema de jogo inédito, novas vozes e diversos recursos, incluindo o recurso Hyper, que combina superpoder com acúmulo de pontos, quebrando os limites da jogabilidade.

Além disso, o arcade permite escolher entre cinco opções de qualidade de som:

  • MM: efeitos e músicas em qualidade de CD

  • MD REFINED: efeitos do Mega Drive e músicas em CD

  • GEN: versão internacional

  • MD2: versão simplificada do Mega Drive

  • MD2 REFINED: versão simplificada com músicas em CD

FINALIZANDO

Podemos dizer que Earthion honra os maiores clássicos do gênero e vai além, extraindo o máximo de um hardware antigo e ainda oferecendo inovações marcantes.

Wada explica:

“Quando terminava um estágio, pedia para Yuzo revisá-lo. A partir daí, conversávamos sobre como seria interessante fazer ajustes.”

Sobre a decisão de ser um shmup horizontal, Koshiro comenta:

“Eu prefiro os jogos de tiro horizontais (risos).”

E faz todo sentido, já que as TVs sempre tiveram orientação horizontal.

Koshiro afirma que acredita que o Mega Drive sempre foi “voltado para jogadores hardcore”. Enquanto a concorrência buscava jogos mais casuais, ele via no console da Sega a mesma intensidade dos arcades.

Apesar de ter quase 40 anos, o Mega Drive ainda parece “de ponta”. Essa sensação única será percebida imediatamente assim que você começar a jogar.

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